Texto produzido pelo jornalista Pedro Doria para o 'Comitê Saúde em Pauta' - grupo formado por importantes especialistas para debater as principais inovações na área da saúde.
Comitê Saúde em Pauta - Inteligência Artificial, Parkinson e Algoritmo

Como se diagnostica uma doença? Para Murali Doraiswamy, que dirige o Departamento de Desordens Neurocognitivas da Universidade de Duke, o processo começou pelo histórico de 31 milhões de buscas distintas feitas no Bing, site da Microsoft que concorre com o Google. Eram dados anônimos — impossível chegar à identidade de quem buscou o quê. Mas era possível conhecer o histórico das curiosidades de cada pessoa anônima. Incluindo, no caso de 700 delas, uma angustiada procura recente por dados a respeito do Mal de Parkinson.

 

Doraiswamy e uma equipe de cientistas da Microsoft pegaram o conjunto de dados e aplicaram, neles, algoritmos de machine learning — aprendizado de máquina. É um dos tipos de tecnologia que atende pelo nome genérico ‘inteligência artificial’. Eles, os pesquisadores, não sabiam o que procuravam. Mas naquele acervo com o histórico de buscas de mais de um milhão de pessoas ao longo de 18 meses, sabiam que 700 buscavam dados sobre uma doença específica. Instruíram, pois, o algoritmo a procurar quais sinais aqueles demonstravam e que os outros, não.

 

Pois encontraram — não nas curiosidades e buscas, mas em pontos mais discretos. Bem mais que um ano antes do diagnóstico de Parkinson’s, aqueles homens e mulheres já acusavam, na falta de firmeza do mouse, nos tremores ligeiros da seta sobre a tela, que algo começava a funcionar mal em seus corpos.

 

Dados Armazenados

Pois é: quando se entra num site como o Google ou o Bing, o Facebook ou a Amazon, tudo está sendo registrado. Não só nossa identidade e o que escrevemos, mas também o circular do mouse pela tela, o tempo em que nos dedicamos a uma página, se acaso marcamos um trecho de texto enquanto o lemos. O conjunto destes dados, em sites gigantes, tem utilidades evidentes no design. Que cor usar num botão, qual o melhor posicionamento de um link, tudo na internet vai sendo adaptado de acordo com o que é mais ou menos usado. Dados tantos, e de tantos tipos, que reunidos os chamamos Big Data. Grandes e vastos bancos de dados, agora também úteis no diagnóstico médico.

 

Aprendizado de máquina, como sugere o nome, é a capacidade de o computador aprender a partir dos dados que recebe. Dê a ordem de buscar padrões — o que estas pessoas têm em comum e que aquelas outras não têm — e ele encontrará. Pessoas que fazem buscas por Parkinson’s, por exemplo, já tremem discretamente a mão do mouse um ano e meio antes de terem pista de que estão doentes.

 

Este encontro entre Big Data e Machine Learning está apenas começando a ser aplicado, mas não é exatamente novo. É, no fundo, a aplicação do método científico em grande escala. É a velha busca de padrões que se repetem na natureza e a continuada tentativa de ligar causa e consequência. A diferença é que a capacidade de processamento de um computador na leitura de milhões e bilhões de pontos vai muito além das possibilidades do cérebro humano. Pura força bruta, chamamos de inteligência artificial por gentileza e apenas. Ele procura o que é comum, a interpretação de suas respostas continua entregue a cientistas.

 

Mas as possibilidades que estamos apenas começando a explorar, que permitirão um gigantesco salto em medicina diagnóstica nos próximos anos e décadas, trazem também um conflito ético ainda não resolvido. Afinal, pelos microtremores de seus movimentos a Microsoft já sabe se você será diagnosticado com Parkinson’s em um ou dois anos. Deve contar? E quando soubermos de padrões que surgem dez anos antes nos casos de cânceres graves. Quem decide que a notícia deve ser dada?

 

Inteligência artificial, ética e Big Data

Esta não é uma pergunta simples de responder. Quando nos sentimos mal e vamos a um médico, estamos em essência fazendo esta pergunta: o que tenho? É atendendo ao nosso desejo que o médico responde. Este método de diagnóstico via algoritmos baseados em inteligência artificial e Big Data é novo e não parte de uma pergunta pessoal. Se quiser, a Microsoft já tem capacidade de diagnosticar Parkinson’s, mais de um ano antes de os tremores serem visíveis, em todos os que visitam diariamente seus sites ou usam seus aplicativos. Imagine estar preenchendo as células de uma planilha e uma janela de alarme saltar à frente. Informa não que o software teve problema, mas que seu corpo, sim. “Desculpe. Você tem Mal de Parkinson. Procure o neurologista mais próximo.”

 

Conforme continuamos a usar smartphones e passamos a adotar smartwatches, óculos inteligentes e a internet das coisas vai ocupando nossos escritórios e casas, mais sensores vão ali sentindo a temperatura de nossos corpos, os ritmos do coração, a quantidade de oxigênio circulando. São dados que se acumulam e, processados por máquinas inteligentes, chegarão a mais e mais diagnósticos. Será muito cruel e impessoal este mundo no qual a máquina nos informa que nosso tempo de vida encurtou.

 

Precisaremos criar novos protocolos na medicina. Quando um diagnóstico deve ser dado, e por quem? Qual é o melhor jeito de informar? Em caso de doença contagiosa grave que deve ser contida, empresas de tecnologia devem informar também ao governo — violando a privacidade do paciente? Temos muitas perguntas ainda por responder. Este é um debate que apenas começou.

 

Confira o vídeo da primeira reunião do 'Comitê Saúde em Pauta'

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