Vacina Covid-19: quem pode se vacinar no Brasil

Dra Maria Isabel de Moraes Pinto , Dra Maria Isabel de Moraes Pinto
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Iniciada em 19 de janeiro, a imunização com a vacina contra Covid-19 no Brasil anda a passos lentos, com pouco mais de 10% dos habitantes vacinados com duas doses. No entanto, ainda há dúvidas sobre quais os imunizantes disponibilizados e quem pode ou não tomar alguma dose. Algumas pessoas, infelizmente, acreditam que não houve avaliação das vacinas antes do licenciamento e da imunização em nosso país.

Neste conteúdo, você entenderá um pouco mais sobre a fila de vacinação, os imunizantes disponíveis e as fases de teste de vacina para coronavírus para que sejam colocados em circulação.

Como está sendo a fila de vacinação da Covid-19 no Brasil?

A fila começou priorizando aqueles que tinham quadros de Covid mais graves e que evoluíam com mais frequência a óbito: idosos de 90 a 60 anos — em ordem decrescente.

Atualmente, o Brasil está vacinando quem tem comorbidades: pessoas com imunodeficiência, diabetes, hipertensão, cardiopatias e pneumopatias. Gestantes também estão sendo vacinadas, mas só podem receber doses da CoronaVac e da Pfizer.


Quais são as vacinas de coronavírus distribuídas no Brasil?

Atualmente, o país conta com três tipos de vacina: 

  • CoronaVac: produzida pela farmacêutica Sinovac e finalizada pelo Instituto Butantan;
  • Covishield: desenvolvida por meio de uma parceria entre a Universidade de Oxford e a farmacêutica inglesa AstraZeneca. No Brasil, é produzida pela Fiocruz;
  • Pfizer: produzida pela multinacional Pfizer em parceria com a alemã BioNTech. É totalmente importada.

Quais são as contraindicações da vacina?

Atualmente, não podem ser vacinadas pessoas com menos de 18 anos ou que apresentaram algum evento  adverso grave na primeira dose.

A vacinação contra Covid-19 é segura?

Sim, é muito  segura. As três vacinas disponíveis no Brasil já passaram por todas as etapas pré-licenciamento. São elas:

Pré-clínica

Utilizam-se sistemas de cultura de tecidos ou teste em animais (geralmente camundongos  ou macacos). Nesta fase, avalia-se a segurança e a capacidade de gerar resposta imune da vacina em animais. Depois, a empresa interessada no imunizante solicita a validação para a fase de testes em humanos.

Fase 1

Aqui, ocorre o primeiro teste em um grupo pequeno de humanos para verificar a segurança  da vacina. Todos os participantes são monitorados continuamente.

Fase 2

É a fase para descobrir a quantidade de doses necessária para deixar um indivíduo devidamente imunizado. Nesse momento, observa-se o aumento dos anticorpos no sangue que responderão à ação do patógeno. É um teste que pode ser feito com centenas de pessoas.

Fase 3

Esta é a fase em que se avalia a eficácia da vacina. Os testes da fase 2 são repetidos, mas agora em milhares de pessoas em diversos países. Ocorre o que se chama de  ensaio clínico randomizado e duplo cego, em que alguns participantes recebem a vacina, enquanto outros tomam placebo. Além disso, nem o pesquisador nem o participante sabem quem está tomando a vacina e o placebo. 

Eventos adversos 

Após o licenciamento, a vacinação passa a ser administrada a muitos milhares e mesmo milhões de pessoas. Nesse sentido, eventos adversos mais raros que não foram observados na fase pré-licenciamento podem ser evidenciados.

Como exemplo, observou-se que entre 1,9 milhão de pessoas imunizadas com a vacina da Pfizer, apenas 21 delas tiveram anafilaxia (reação alérgica grave). Trata-se de  um número muito pequeno de casos  e a probabilidade de que essa reação aconteça é mais comum entre pessoas já muito alérgicas. Além disso, este evento adverso pode ser adequadamente tratado.

Já com a Covishield, observaram-se fenômenos trombóticos associados a plaquetas baixas, porém igualmente raros. Entre os britânicos, foi 1 caso a cada 250 mil pessoas; na União Europeia, 1 a cada 100 mil.

São quadros raros, mas como o número de pessoas vacinadas atualmente é muito maior, ficou mais fácil observar esse tipo de manifestação.


Auxílio médico

Embora sejam casos muito raros, é fundamental que as pessoas observem e procurem um médico caso apresentem sintomas diferentes daqueles esperados. Todos os locais de vacinação estão preparados para lidar com a anafilaxia. Além disso, alergias graves podem acontecer com qualquer medicamento e até com alimentos — basta o indivíduo apresentar predisposição.

Sobre a AstraZeneca/Covishield

A  Covishield, popularmente conhecida como AstraZenca e produzida no Brasil pela Fiocruz, tem eficácia de 76% três semanas após a primeira dose. Outro estudo, desta vez na Coreia do Sul, apontou eficácia de 86%. No geral, a AstraZeneca afirma que a vacina teve uma eficácia significativa de 79% na prevenção da Covid-19 sintomático e 100% na prevenção de casos graves e hospitalização.

A Covishield é uma vacina de vetor recombinante. Ela utiliza um tipo de adenovírus que causa doenças em primatas não humanos e nele é inserido um pedaço do genoma do coronavírus, que codifica a proteína Spike/S. Esse vetor (adenovírus) é não replicante, ou seja, ele tem a parte do DNA que permite a replicação do vírus desativada. 

São necessárias duas doses de Covishield, com intervalo de três meses entre uma e outra, para  que se desenvolva a resposta imunológica considerada necessária. Em geral, eventos adversos são dor local, cefaleia, febre e mal-estar geral que duram, no máximo, dois dias.  Raramente um indivíduo pode desenvolver um problema trombótico. Os riscos da vacina são, em muito, suplantados pelos benefícios. Além disso, é preciso se lembrar de que a Covid-19 aumenta em 100 vezes a chance de ter trombose em comparação com a população geral.

Sobre a Pfizer

Recentemente importada para o Brasil em pequena quantidade, a vacina da Pfizer tem eficácia de 97% para casos sintomáticos. 

O imunizante é feito com uma plataforma de RNA mensageiro.  Seleciona-se um uma parte do código genético do Sars-CoV-2 que codifica a proteína S  e ele é então envolvido num envelope lipídico. Esse envelope é importante para facilitar a entrada do RNA na célula e, assim, desencadear a resposta imunológica desejada. 

Nessa vacina, também são necessárias duas doses com intervalo de 3 meses (Nos Estados Unidos e na Europa , o protocolo é de 21 dias). Como, eventos adversos, pode haver mal-estar, dor local e febre, com uma porcentagem muito pequena de anafilaxia, algo muito raro e apenas para quem já é predisposto.

Sobre a CoronaVac

É uma vacina produzida em parceria entre a Sinovac e o Instituto Butantan. De maneira global, a proteção é de 50% para casos leves, 70% para moderados e próxima de 100% para graves.

A CoronaVac tem uma plataforma mais tradicional: é uma vacina de Sars-CoV-2 inativado. Feito na China, esse insumo é trazido ao Brasil e finalizado no Instituto Butantan. São necessárias duas doses para garantir a imunidade desejada, com intervalo de 21 a 28  dias entre elas. Pode causar dor local, mal-estar e febre, mas são sintomas raros.

Sobre a ButanVac

 O Instituto Butantan firmou parceria e tem a licença de uso e exploração da vacina ButanVac, que foi desenvolvida pela Icahn School of Medicine do Hospital Mount Sinai de Nova Iorque, Estados Unidos.  A ButanVac aguarda a aprovação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) para iniciar os estudos clínicos. Por isso, ainda não é possível saber sua eficácia, dose e  eventos adversos. 

A ButanVac é um híbrido entre a vacina recombinante e a vacina inativada. Ela utiliza o vírus da doença de Newcastle, que afeta apenas aves, como um vetor para abrigar a proteína Spike do Sars-CoV-2. Também chamada de proteína S, a Spike é a responsável por fazer com que o vírus seja capaz de entrar na célula. 


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Dra Maria Isabel de Moraes Pinto

Dra Maria Isabel de Moraes Pinto

Médica consultora em vacinas da DASA. Infectopediatria, Professora Livre Docente da Universidade Federal de São Paulo,
São Paulo / SP - CRM: 51.680

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